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Artigos por Dr. Daniel Valpaços

Como os nossos dentes nos provocam “dores de costas”.

Os dentes na origem da dor de costas ? Um em cada três casos terá uma origem... dentaria

 Para aliviar cervicalgia, dorsalgia, ciática, tendinite e entorse, seria suficiente realinhar os nossos dentes.

“ Dr. Sofro há imensos anos de dores na coluna e nada me alivia - Bem, mostre-se os seus dentes”. Confesso que o exemplo é deliberadamente exagerado, no entanto muitos especialistas concordam na existência de uma relação entre a oclusão dentaria e a postura. Para os menos familiarizados, a oclusão é a forma como os dentes de cima se encaixam com os de baixo. Segundo Jean-Marie Landoudy no seu livro “Mal de dos – Mal de dents”, as perturbações oclusivas ou mordidas assimétricas são responsáveis de 35% dos casos de dores vertebrais. A mordida assimétrica foi o motivo do impedimento da transferência de Cissokho para o Milan em 2009, mas já voltaremos o tema do futebol.

 Dentes ou ATM ?

Na essência do problema: a articulação temporo mandibular ou familiarmente denominada de ATM que sustenta a nossa mandíbula e nos permite mastigar, beber, comer, bocejar, sorrir, falar...

É preciso entender que neste raciocínio de lesão à distancia, um desvio da mandíbula provoca uma tensão exacerbada dos músculos do pescoço, que por si próprio descentram da posição da cabeça. Segue-se sucessivamente um conjunto de adaptações músculo-esqueléticas da cabeça aos pés que poderíamos dissertar com teorias de biomecânica seguindo os trabalhos de LittleJohn ou  Kapandji.

Contudo para simplificar, algo facilmente reproduzível em consultório ou em casa, consiste em colocar uma espátula ou uma folha dobrada entre os molares de um lado : o resultado é o desvio imediato da mandíbula do lado oposto e uma ascensão da scapula (omoplata) e da bacia do mesmo lado. Truque de magia? Efeito placebo lembrando algumas pulseiras em voga há alguns anos? As duvidas dissipam-se quando colocamos uma cunha por baixo do calcanhar e nos apercebemos de um desvio da mandíbula do mesmo lado. Alias, a universidade de Frieburg na Alemanha evidenciou cerca de 130 estudos confirmando os efeitos da arcada dentaria sobre o equilíbrio do corpo e da postura sobre a oclusão.

O mecanismo postural: 

É imprescindível destacar que nenhum ser humano possui uma simetria perfeita seja da mandíbula, do membro inferior ou do crânio e por isso existem fenómenos de adaptação e de compensação que impedem o aparecimento de sintomatologia. Todavia ao longo do tempo ou por algum traumatismo, o corpo não consegue colmatar estes defeitos de posicionamento : cada individuo tem um limiar adaptativo próprio além do qual se desencadeiam sintomas mais ou menos importantes. Irritação nervosa, hiper solicitação muscular, compressão nervosa ou arterial, fricção tendinosa, ingredientes mais do que suficientes para provocar cervicalgias, lombalgias, cefaleias, tendinites ...

O stress que leva à cerrar os dentes fortemente, o bruxismo, a falta de um dente, a reorganização dentaria apôs remoção dos dentes do siso enfraquecem e destabilizam a ATM e o seu sistema muscular. Por norma cerramos os dentes entre 30 à 50 minutos por dia, já uma pessoa sofrendo de bruxismo exerce uma pressão 10 vezes superior ao normal podendo atingir os 400kg/cm2 ou seja entre 90 à 120 kg por dentes : imagine-se à suportar o peso de homem num só dente.

 Todos sofremos?

Os diversos estudos apontam que 30 à 40% da população apresenta sintomas devidos à má oclusões, cujos principais e evidentes causas ser relacionam com os fenómenos dentários acima referidos.

Como osteopata, seria de esperar que falasse de uma causalidade mais complexa : a plagiocefalia ou síndrome de cabeça plana pode estar à origem de um desvio do maxilar que se repercutira na ATM, isto ao mesmo titulo que a deformação do maxilar pela sucção do polegar na infância. Da mesma forma, identificam-se pós-parto desvios da mandíbula em resposta à um esforço ou desvio da bacia durante a gravidez e/ou parto.

Confesso que me apeteceria colocar no ar a hipótese hormonal, pois a experiência em consultório retrata uma afecção principalmente nas mulheres dos 35 aos 50 anos com auge na menopausa.

 A goteira : solução milagrosa ?

À data ainda não existem estudos que possam comprovar o beneficio do uso da goteira dentaria nas dores de costas e outras patologias músculo-esqueléticas, esta aparelhagem é prescrita no âmbito da correcção da má oclusão. Ou seja, a solução não passa pela colocação de goteiras em todos os utentes que apresentam dores musculares ou vertebrais na expectativa de melhoras.

Contudo em casos de desvios significativos da mandíbula e bruxismo exacerbado, a goteira apresenta-se para mim como um aliado imprescindível no tratamento de cervicalgias, cefaleias, tensões musculares nos trapézios, pescoço .... principalmente em mulheres dos 30 aos 50 anos.

 “O melhor jogador do mundo usa”, não passou despercebido à imprensa o uso de uma goteira transparente pelo Cristiano Ronaldo. Desde 2008, CR7 corrige os desequilíbrios da mandíbula na procura de maior rendimento muscular.

É para mim importante diferenciar aqui os atletas de alto nível com o cidadão comum : no seguimento de futebolistas de ligas profissionais recorro ao uso da goteira em 90% dos casos, justificando-se pela hiper solicitação muscular e articular resultante do futebol. Isto é claro em complemento do tratamento em Osteopatia, como o seguimento pelos fisioterapeutas, fisiatras ...

Pela minha experiência pude evidenciar uma diminuição do tempo de recuperação física pós jogo em cerca de 30%, que explico pelo relaxamento do musculo masséter que é exponencial no resto do corpo sendo a ATM uma entrada postural importante o raciocínio em Osteopatia. Levando ao extremo, noto um desenvolvimento da força muscular de um quadriceps de cerca de 12% assim como um aumento do perímetro de 7% do mesmo. Poderia evidenciar ainda mais números específicos, dissertar sobre a grande influencia do desequilíbrio mandibular na pubalgia do futebolista, analisar a diminuição da recidiva de entorses do tornozelo e a recuperação mais célere de um estiramento ligamentar no joelho : o importante é perceber que estas doentes que denomino de “formula 1” necessitam de um tratamento diferente do carro do cidadão comum, alias porque cada grau de mobilidade, minuto de recuperação faz toda a diferença. Retomando o caso do ex-jogador do Fc Porto Cissokho, acha que na sua próxima entrevista de emprego lhe solicitaram uma analise de mordida?

O papel da Osteopatia?

É relevante recordar que existem 5 sensores posturais no nosso corpo : olhos (visão), ouvido interno, pés, coluna cervical (occipital) e a ATM, sendo esta ultima alvo de muita literatura e pesquisa cientifica em Osteopatia.

Do mesmo modo que se restitui a mobilidade, alinhamento e equilíbrio à um joelho, ombro ou outra articulação, existe um leque de técnicas especificas para tratar a articulação temporo mandibular. De técnicas intra-bucais para reorganizar o palato, entre mobilzaçoes cranianas do frontal com o temporal, do temporal com o occipital, trabalho muscular da musculatura mandibular : a ATM é o exemplo mais representativo da visão holística em Osteopatia. O nosso corpo e particularmente o nosso esqueleto, funcionam como laminas que se vão sobrepor, sendo importante o equilíbrio das diferentes camadas pela sua interligação.

Este é dos exemplos onde não existe protocolo : é possivél corrigir uma ATM ao tratar uma antiga entorse de tornozelo. Aquele pequeno encurtamento de perna por retracção dos isquiotibiais que coloca a bacia em rotação posterior de 8° vai provocar o mesmo desvio na mandíbula, caso no qual é primordial identificar a causa do efeito.

O equilíbrio dentário é significativo na nossa postura, ao mesmo titulo que o sistema podal. Convenhamos que têm a sua maior eloquência no desporto de alta competição, seja no futebol, basquetebol, ténis ou outros ... Este artigo evidencia a visão holística em osteopatia, pois seria redutor perante a complexidade do nosso organismo ter uma abordagem de tratamento local, de supressão dos sintomas. Fica mais um exemplo da importância de um tratamento multidisciplinar, porque afinal estamos todos juntos para o melhor do “doente”.

Nota : A Osteopatia não se substitui à consulta do seu médico e ao uso de medicamentos

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